09 maio, 2013





Dispersos
...

Vou ali chorar e volto.
Juntarei minhas mãos em concha
depositarei lágrimas, com cuidado, até as bordas
e entregarei à terra.
Desse encontro vingará
a cabeceira do rio.

Seu leito não aceitará cuidados
pois é mais forte que eu.
Sulcos de lodo e segredos,
matas de alegria, pedras indomáveis,
sedimentos de saudade e amores mal acabados.

Amanhã chorarei de novo
depois de amanhã também
para alimentar seu curso
de água, sal, sofrimento.
Nesse rio caudaloso
banharei o transtorno, a urgência,
a virulência do sentimento.

Em sua foz,
um dia,
me deitarei
e morte.

Martha 

30 abril, 2013



Law and order ou Esse papo já tá qualquer coisa

Lembram da Árvore do Esquecimento? No antigo Benin, quando os civilizados europeus sequestravam e escravizavam os selvagens africanos, antes de embarcarem nos navios negreiros, obrigavam as mulheres a dar sete voltas nesta árvore, e os homens, nove voltas. O objetivo era simbolicamente fazer com que aquelas pessoas selvagens esquecessem seu passado, sua cultura, suas memórias e se submetessem a perversidade e dominação dos civilizados.

Vou confessar a vocês que esta palavrinha nada inocente: civilidade, tem machucado meus ouvidos desde a Revolta das Caxirolas. Porque sou traumatizada. Ainda pequena, na escola, eu aprendi que há muito tempo, belas e civilizadas caravelas chegaram aqui em nosso futuro país, cheinha de civilizados portugueses que brigavam civilizadamente com civilizados espanhóis para ver quem dominava mais povos e roubava mais terras.
Chegando em nossa futura terra, esses homens, civilizadamente vestidos, chamaram de índios as selvagens pessoas que moravam aqui, e pasmem: estavam nus! Quanta falta de civilidade. Bom, aí os civilizados portugueses estupraram as selvagens mulheres  e tentaram escravizar todos os selvagens. Mas os selvagens eram uns preguiçosos, não queriam trabalhar, o jeito era matar, e os civilizados portugueses os dizimaram.
Para os que sobraram, o jeito era civilizá-los. Com a ajuda da civilizada igreja católica destruíram a sua cultura, a sua fé, crenças, memórias, civilizadamente pisaram na individualidade de cada índio selvagem.
Vamos salvar mais almas! Pensaram os civilizados europeus e até o século passado tinha europeu civilizado invadindo, roubando e torturando selvagens africanos. A tal Árvore do Esquecimento, lembram?

E hoje, em nosso país? Civilizadamente aceitamos a rígida estratificação social criada pelos civilizados colonizadores, aceitamos que exista saúde para ricos e saúde para pobres, aceitamos e propagamos a falácia que a educação vai nos salvar - a educação civilizada é feita para o capital e não para a liberdade, a educação dos civilizados é feita para manter o funil do vestibular, a civilizada educação é feita para manter tudo como está, cada um no seu lugar, a rígida estratificação civilizada, os que mandam, os que obedecem, a educação em nosso mundo civilizado sabe muito bem o que quer: manter as classes devidamente e civilizadamente separadas - aceitamos transportes urbanos feitos para oprimir e humilhar, aceitamos casas penduradas nas encostas, aceitamos prisões cheias e bandidos de alto escalão soltos, aceitamos, aceitamos, aceitamos civilizadamente votar e referendar tudo isso de tempos em tempos.

Eu proponho que nós, os não civilizados, demos uma volta simbólica na Árvore do Lembramento, as mulheres sete voltas, e os homens, nove, no sentido contrário ao que os nossos civilizados antepassados portugueses obrigaram os nossos selvagens antepassados africanos.

Martha

29 abril, 2013



Saímos da sala e a chuva tchêêêêêê, caía sem trégua. Ficamos esperando no foyer, eu calada, ouvindo desatenta o burburinho ao redor, olhando a chuva, um cachorro que bradava para as pessoas que passavam e uns meninos abrigados embaixo de uma árvore enorme.

A chuva estava intrépida, decidi seguir viagem. Uma colega, uma mulher mais velha que eu acabara de conhecer, me disse: Quer carona? Eu te levo até o carro. Aceitei e fui me dando conta do tamanho da gentileza pouco a pouco: Estou com a sombrinha pequena, mas a gente dá um jeito. Leve você que é mais alta.
Tomei o caminho crente de saber onde estava o carro. Não, ali não estava, subimos de volta a ladeirinha. Menina, você não sabe onde deixou seu carro... foi perto de uns bares?
Foi neste estacionamento, afirmei, categórica. Aqui não pode ser, aqui é só pra funcionários, pacientemente me respondeu. E a chuva tchêêêêêê e nós de braços dados numa pequena sombrinha azul celeste, as duas baianamente de sandálias pisando nas poças d'água. Insisti, insisti pra ela desistir de mim, pra ela ir pra casa e eu rodaria até encontrar o carro. Ela se manteve firme:Você não sabe onde está, vamos achar.
Depois de darmos quase uma volta completa no Solar Boa Vista: achei! Antes de nos despedirmos, Dênia repetiu umas três vezes, preocupada: Martha, agora, você vai por aqui, viu? E não vire a direita! Tá ouvindo? Pra pegar o Ogunjá você não vira a direita!

Vocês podem até achar piegas, mas não é, não, voltei pra casa com a pura sensação de rosas.

M.


 Pudim

Cristal

Nós





De Alê para Leila via Martha








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